Amados, amadas de Deus, romeiros e romeiras de São Raimundo Nonato, Teresina, Parnaíba, Campo Maior, Floriano, Picos, Oeiras, Bom Jesus,
Tenho Sede!
Vivo este momento com uma dose muito grande de humildade e de responsabilidade. Faço esta homilia como uma missão, como de resto tudo o que faço. Porque, ao que me pareceria normal seria missão de Dom Sérgio, nosso arcebispo que preside esta celebração, ou ao menos, de dom Ramón, bispo desta Diocese. Mas, como afirmei, encaro este momento como uma missão.
Não me parece ser capricho e nem ironia do destino, mas parte do desígnio divino, o fato de todos os povos, todas as culturas, todas as gerações terem os seus êxodos. Desde o nosso nascimento natural, quando se rompe a bolsa que nos acolheu no ventre da nossa mãe; desde o nosso batismo que nos lava das manchas do pecado original; passando por todas as fases das nossas existências, até a nossa morte também natural, vivemos uma espécie de êxodo existencial. Se todos os povos tem seus êxodos, suas saídas da terra da escravidão para a terra da libertação, podemos afirmar, sem medo de errar, que o êxodo é uma parábola da existência humana.
A experiência do êxodo é uma experiência pascal: a passagem do velho para o novo, do pecado para a graça, da escravidão para a liberdade. Todos os êxodos tem uma tonalidade pascal. Todos os êxodos tem os seus divisores de água. Por eles passamos ou passaremos pelo mar vermelho ou pelo mar também vermelho do sangue derramado por Jesus no calvário e na cruz. Ainda mais, nós que nascemos neste país continental chamado Brasil que traz visivelmente as reminiscências e as marcas dos êxodos dos negros nos navios negreiros da história. Basta olhar para nossas cores, nossas peles, nossas raças, nossas sortes, nossas situações. Só não podemos dizer o que disseram dos índios no inicio da colonização: “somos escravos por natureza”.
Talvez nem devêssemos falar de êxodo, de saída, de peregrinação e de romaria, mas de missão. Deus ao criar um povo, cria um povo peregrino, romeiro, itinerante, missionário. Cria, chama, liberta e envia em missão. Nossa romaria não poderia ser de outro tipo a não ser uma romaria missionária: romaria missão, diria! Os grandes personagens da bíblia não são apenas modelos de pessoas chamadas e vocacionadas, mas também são exemplos de missionários: Abraão, Moisés, Pedro, Paulo Jesus...
O contexto celebrativo de hoje move-se no espaço de êxodo e de deserto como buscas do sentido da vida. O povo no êxodo da primeira leitura busca o sentido da vida reclamando por pão, água, moradia, terra para morar, sentido para viver. O povo no evangelho busca Jesus como pão para a sua vida. Jesus orienta a este povo a buscar o pão que dá sentido verdadeiro à vida no deserto e no êxodo.
A imagem do povo que aparece nas leituras de hoje é a de um povo insatisfeito com a sua realidade, faminto e insaciável em sua fome e sede, desorientado em saber o porquê da sua travessia; é a imagem de um povo que desafia a realidade, a Moisés, a Deus e a Jesus; é também a imagem de um povo que tem memória parca, fraca, apagada, sem paciência histórica. É o retrato de um povo preso à busca do pão material, sem abertura ao transcendente, muito parecida com a imagem do homem/mulher de hoje na busca do imediato, do mais prazeroso, do descartável e do contingente.
Por isso, a liturgia de hoje, vem em socorro destas nossas fragilidades, ao falar-nos dos sinais da passagem do mar vermelho pelo povo da primeira aliança; ao falar-nos dos sinais da multiplicação dos pães, na passagem de Jesus para a outra margem do lago de Tiberíades; ao falar-nos dos sinais da nossa passagem por esta bela e santa Romaria da Terra e da Água do Piauí. A vida é uma eterna romaria, em busca do sentido para esta vida.
A viagem, a travessia, a romaria e a peregrinação entre o Egito e a terra prometida, a origem e o destino, o ponto de partida (a escravidão) e o ponto de chegada (a libertação), entre o Piauí, passando por Corrente, e o “sul maravilha” tem várias etapas.
Vejamos algumas destas etapas:
A primeira etapa desta viagem romeira se encontra na primeira leitura: ela descreve as privações de água, comida, liberdade e o surgimento dos conflitos sociais, normais para um lugar como o deserto. A Deus é feita a pergunta: “O Senhor está ou não está no meio de nós?” Na dialética da narrativa desta primeira leitura, a resposta a esta pergunta está na água achada na rocha que, segundo Paulo, a rocha era Jesus (1Cor 10,4). A nossa resposta não pode ser outra que esta: “sim, meu povo, o Senhor está aqui e agora. E este Senhor é Jesus Cristo”.
A segunda etapa desta viagem romeira se encontra o salmo: o salmista, por outro lado, não fala como um historiador, um filósofo, um sociólogo, mas como um liturgo. Faz o contraponto, o contracanto, ao pedir ao povo que não se esqueça que Deus o alimentou na travessia do deserto. Um fato desta natureza não pode ser simplesmente esquecido, mas recordado, rememorizado e guardado no recôndito do coração, perpetuado de geração em geração.
A terceira etapa desta viagem está na segunda leitura: segundo Paulo o cristão não pode se comparar a um pagão. O cristianismo não é um paganismo melhorado. O cristão tem que se despir do homem velho e se revestir do homem novo, renovado pelo Espírito. Com o ser cristão acaba a era da “caducidade”, da “caduquice”, da escravidão. O homem novo não é aquele que tomou elixir de longa vida e nem quem encontrou ou acertou o caminho e tomou remédios da eterna juventude. O homem novo, a mulher nova, é aquele e aquela que adere pela fé e pelas obras a Jesus Cristo, o homem novo por excelência.
A quarta etapa está no evangelho: no evangelho a pergunta agora é endereçada a Jesus: “Senhor, como chegastes aqui?” Meu povo, Jesus chega sempre primeiro do que nós, em quaisquer lugar e situações! Ele está aqui no meio de nós como peregrino, romeiro, cortador de cana... Jesus, Mestre e Senhor, Educador e Diretor Espiritual orienta o povo a esforçar-se não só pelo pão que se perde e que acaba, mas pelo pão que dura e alimenta para a vida eterna. Jesus, no evangelho de hoje, nos diz que o pão mais importante não é o pão que só sustenta o corpo, mas o pão que sustenta o espírito. O pão somente material envelhece caduca e apodrece. O pão da fé é duradouro, eterno e leva à vida eterna. A liturgia de hoje, caros irmãos, caras irmãs, quer nos convencer que precisamos sempre mais de Jesus, que Ele é imprescindível para nós. Ele é o nosso guia, nosso pão de cada dia; só por Ele, com Ele e nele podemos viver. “Aonde iremos nós, Senhor? Só tu tens palavras de vida eterna”!
É evidente que há uma quinta etapa nesta viagem romeira, a nossa parte nesta parábola da humanidade: como muitas vezes é a nossa, a reação da multidão diante da multiplicação dos pães é deludente. A multidão segue a Jesus mais por curiosidade, ou por egoísmo, porque comeu pão de graça. Para Jesus é preciso dar um novo sentido à vida, para além das panelas de carne, do pão que acaba, que cria mofo, apodrece, adoece, mata. O valor e o sentido que alimentam a vida são outros: a fé, o amor, a esperança, a paz, a solidariedade globalizada, “a caridade na verdade”, para usar uma expressão do papa Bento XVI na sua última encíclica.
É evidente que hoje há uma supervalorização dos bens materiais. Por eles pode-se pisar, passar por cima das pessoas, das leis, das regras e das normas de convivência; por eles pode-se fazer os outros migrarem, escravizá-los sem nenhum peso de consciência. Paulo nos orienta a nos despojarmos desta mentalidade e a revestirmos nossa vida de um novo vida.
A pergunta feita a Jesus, agora se remete a nós: que obra devemos fazer? A obra da fé: a fé com obra, juntas, fé e vida, vida e fé. Para seguir Jesus é preciso ser peregrino da fé, migrar, deslocar-se para o outro lado do mar. É preciso se deslocar, peregrinar, ser romeiro, sair da casa da servidão, da manipulação e das novas formas de escravidão que deixam caídos à beira da estrada da vida tantos irmãos e irmãs nossos.
Alguém já perguntou se migração tem muros ou pontes? Não é construindo muros de separação racial que vamos acabar com a migração e sim construindo pontes de dignidades. Jesus não foi pedreiro: construtor de muros que separam as pessoas, foi, ao contrário, carpinteiro: construtor de pontes, portas e janelas para as pessoas se comunicarem. Ao lado do sagrado direito de migrar, a pergunta que não pode calar dentro de nós é esta: por que somos obrigados a sair de nossa terra?
Estamos aqui, em romaria, dando um novo sentido a este modelo de vida ensinado por Jesus. Por conta da migração forçada e do trabalho escravo ficamos sem família, sem comunidade, sem liberdade, sem cidadania e consequentemente, sem vida. Primeiro eles tiram nossa famílias e nos tiram de nossas terras, depois tiram a nossa liberdade e a nossa cidadania.
Eis, pois, alguns dados ilustrativos:
A assinatura da lei áurea, em 13 de maio de 1888, representou o fim do direito de propriedade de uma pessoa sobre a outra, acabando com a possibilidade de possuir legalmente um escravo no Brasil. No entanto, passado tantos anos, ainda na atualidade, persistem situações análogas ao trabalho escravo: fazendeiros, usineiros, madeireiros, siderúrgicos, pecuaristas, aliciadores, gatos, homens dos agronegócios e similares continuam desafiando as leis, vivendo na ilegalidade, fazendo dos pobres seus escravos. A Convenção nº 29 da OIT de 1930, define sob caráter de lei internacional o trabalho forçado como “todo trabalho ou serviço exigido de uma pessoa sob a ameaça de sanção e para a qual não se tenha oferecido espontaneamente”. A escravidão simplesmente é uma força de trabalho forçado. E a migração forçada é uma forma de trabalho escravo porque a pessoa não se oferece espontaneamente para trabalhar, nem escolhe o patrão, o tipo de serviço, as condições de trabalho, as distâncias de casa e nem o salário que irá receber no final do mês.
Trabalho escravo se configura também pelo trabalho degradante, aliado ao cerceamento da liberdade. Isto nem sempre é visível, uma vez que não se utilizam correntes para prender o homem ao tipo de serviço, mas sim ameaças físicas, terrorismos psicológicos ou outras formas de subserviências.
As formas de abordar o trabalhador, os tipos de transportes, os alojamentos, as situações de insalubridades, os saneamentos, as alimentações, os maus-tratos, as violências e as mortes estão ai estampadas para testemunhar o que acabamos de afirmar. Vejamos ao menos alguns testemunhos:
1) Pedro, 13 anos, piauiense como eu, meu xará, disse que perdeu a conta das vezes em que passou frio, que foi ensopado pelas chuvas e trovoadas amazônicas, debaixo de lona amarela que servia de casa durante os dias da semana. 2. Luis, piauiense que nem eu, disse que perdeu um dedo da mão quando a lâmina giratória da moto-serra desceu sem aviso. “Me deram duas caixas de comprimidos: uma para desinflamar e outra para tirar a dor e me mandaram embora”. 3. Carlos, como eu piauiense, disse que tremia por várias dias, não de malaria ou de dengue, mas de desnutrição. 4. Paulo, piauiense como eu, disse que só comia carne quando o boi morria. 5. Mateus, piauiense como eu, capturado em uma fazenda, disse que usava a mesma água para beber, lavar roupa, tomar banho e cozinhar: “a água parecia suco de abacaxi, de tão suja, grossa e cheia de bicho”. 6. José, também piauiense como eu, por ter denunciado a sua situação, foi agredido com uma faca. Disse eles: “se não tivesse me defendido com a mão, o golpe tinha pegado no pescoço”. “E não pude fazer mais nada, além disso”. Disse ainda ele: “macaco sem rabo não pula de um galho para outro”. 7. Seu Antonio, piauiense também como eu, perguntado quanto o seu pseudopatrão pagou pelos acidentes, disse: “um olho perdido - R$ 60,00; uma mão perdida - R$ 100,00”. E assim por diante. Estranho é que o corpo com partes perdidas tem preço, mas se a perda for total não vale nada. 8. Francisco, piauiense como eu, não teve tempo de contar a sua história, pois morreu em decorrência da exaustão no corte de cana. E tantas outras histórias não documentadas.
Certamente todos que estamos aqui, conhecemos histórias, pessoas, nomes, sobrenomes, situações que comprovam o que estamos dizendo. Ninguém, de sã consciência, é capaz de desdizer estes dados que estão disponíveis em todas as paginas escritas ou não escritas da nossa história. As vozes destes depoimentos nos questionam e nos interpelam profundamente a nós que estamos aqui, bem como aqueles que aqui não vieram (nossos governantes) que, por missão, deviam estar aqui. Não vamos voltar para nossas casas, oprimidos e opressores, como se nada tivesse acontecido.
Vale ainda ressaltar que a maioria dos casos de migração é motivada por crises profundas: conflitos, guerras, fomes, doenças, instabilidades políticas, desastres naturais, desertificações, pobrezas, problemas econômicos, sociais, culturais, violências, prostituição, alcoolismos, mortes... A migração nestes moldes, é uma viagem para a pobreza, piora a desagregação familiar, a destruição das comunidades, os conflitos, a fome, as guerras, as instabilidades políticas, os crescimentos populacionais, a destruição do ecossistema e esgotamento de áreas cultiváveis. As alterações climáticas agravam a migração forçada e levam ao trabalho escravo. Alguns estudos afirmam que, por causa das mudanças climáticas, a migração poderá pular de 50 milhões em 2010 para cerca de 700 milhões em 2050. Segundo estudos confiáveis, na metade do atual século milhões de pessoas poderão estar fugindo das mudanças climáticas globais: mares que se elevam, de secas ou enchentes devastadoras e de outros desastres naturais. Isto atingirá sempre o mais jovem, o mais fraco, o mais pobre e o menor e, por tabela, atingirá as mulheres, as crianças e os mais velhos.
Portanto, está dado o alarme. O sinal amarelo está aceso.
Caríssimos(as), para abreviar, por tudo isto, e por tudo mais, vivemos situações e em situações de trabalho escravo; vivemos em regimes de trabalhos escravos. Esta nossa romaria se inscreve neste itinerário traçado por Deus que “desce para libertar o seu povo”, como um divisor de águas: houve migração forçada, houve trabalho escravo antes. Depois não! Por isso devemos gritar com todo o pulmão: migração forçada, jamais! Trabalho escravo nunca jamais!
Que Jesus Eucaristia seja nosso alimento e nossa força na luta por um mundo novo no qual todos possam ser tratados com respeito e dignidade. Jesus, pão vivo descido do céu, ajuda-nos a construir a “terra sem males” que nos faz pregustar a alegria e a paz do reino definitivo.
Basta de trabalho escravo. Basta de migração forçada. É por isso que se diz: migração forçada, jamais; trabalho escravo nunca mais!
Dom Pedro Brito Guimarães,
Bispo de São Raimundo Nonato |